segunda-feira, 18 de junho de 2018

O Visto

Vi um bicho agora pouco
Sentado no banco do carro
Olhos vermelhos, como quer almofada,
E só olhando a fumaça dos outros carros passar.

Quando via alguma tristeza que passava,
Não piscava, nem parava:
Olhava de uma prontidão invejável.

O descrito não é um conto,
Não é delírio,
Não é estória.
O descrito, pasmem, é só um auto-retrato numa realidade dura.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Eis-me Aqui Sozinho

Eis-me aqui sozinho
Sobre as vozes na parede.
E quanto mais o grilo no mato canta,
Mais a parede chora e,
De sempre,
Eu aqui sozinho.

Eis-me aqui sozinho
Esperando atentamente o bater da porta,
Sentir o calor, as risadas, o zumbido dos outros...
Mas quando pisco, num olho, Bingo!
Eis-me aqui sozinho.

E quando recupero-me em lucidez,
Os ponteiro, rápidos, sobressaltam-se em horas,
E ai se bate a sirene, o calor se consente, se geme a porta.
Vejo que a sala se lota e,
Num instante, tudo volta e
Interrompe todo o ocorrido:

O grilo se cala;
As moças berram;
Os homens se batem.
Num instante tudo se há entre
Aquelas mesmas paredes.

E então, só aí então, percebo que
No meio de todo o espaço habitado,
De todo o papo, zumbido, grito e descontração,
Permaneço-me o mesmo.

E eis-me aqui ainda profundamente sozinho.