quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Croniquêta 02 - Compadecer-se

Do trabalho ele foi pra casa. Sem intermediário. No dia seguinte, devido à vespera do ano, estava liberado de seu ofício, mas não teve conversa com ele: Do trabalho ele foi pra casa e ponto.

Tinha um opala dos seus tempos de moço jovem, mas não gostava de usar. Para ele, não usar era melhor que usar de vez em quando. Desculpas ou não, ficava por não usar mesmo e, por ele, tanto fazia.

Chegou em frente à sua morada e parou. Permaneceu-se imóvel por uns centavos de tempo e viu que já era a hora de repintar a fachada da casa e trocar o portão que já tava pra lá de passado. Pensou com ele que dava pra pagar as mudanças, mas era coisa pro próximo mês, e não tinha como planejar no momento em que pensava sobre o assunto. Seu bairro estava em euforia pelo ano que se aproximava.

Nunca foi um homem de exageros. Nem em sociedade, nem em intimidade. Tomou seu banho - que durava pouco mais de 15 minutos - e logo foi pra cama. Tirou da cabeceira um livro do Freud e retomou da parte que parou. O homem gostava de tomar doses de "realidade" em suas vésperas de sono. Não folheou mais que três poucas páginas e tombou cansado.

Na madrugada do dia seguinte, acordou. Como já era convencional esse acontecimento, fez o que sempre fazia quando acordava naquelas condições: arrumava a cama; sentava diante de sua mesa de mármore preta e olhava pra parede cor-de-creme até seus olhos notarem os primeiro raios de sol do dia.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Elegia

No início era turvo
Mesmo turvo era dia
Na cabeça quente se ardia
Era nada, era tudo.

E no fundo do submundo
O que era era turvo, era dia
E do escuro que não vinha nada
Agora algo saia.

Nuance de preta-cor-púrpura
Algo mais se aproximava
Do fundo com ardor se puxava
Algo que eu mais reprimia.

E na chama do armor ardente
Ao lembrar se fez presente
Não era poesia, nem poema,
Pelo tema, era elegia.

Croniquêta 01 - Devaneios

Eu ando pensando sobre muita coisa. Vez ou outra eu mais que penso, defino. Um dia desses eu andava pensando sobre morte (Suicídio consumado) e conclui que há, sim, esse tipo de consumação pré-morte entre suicidas. Pouco tempo depois, numa colher de indagação, a consumação da ideia caiu por terra. Com vida, o "porquê" e o "e se", pode ser a desculpa pra morte (Pra evitar). E assim conclui.
Outra dia eu pensava sobre Amor. Ah, o amor... o desejo do homem; a maçã proibida; o deleite da Filosofia. Por exemplo, para Platão o amor não se concebe no desejo pela carne, mas sim pelas virtudes como: a paciência; a inteligência; a delicadeza; o ódio e seus afins aproximados. Ah, e a propósito, "amor platônico" tornou-se um conceito distorcido tanto da ideia de Platão como da definição do criador do termo, provindo do século XV.
Confesso que, às vezes, penso em muita merda, mas, logo quando elas me vem, encaro logo como devaneios. Por favor, guarde esse conselho: o jeito mais eficaz de se tratar brigas com si mesmo é encarar tudo como um devaneio. Inclusive, isso tudo aqui é um devaneio. Ou pelo menos vou preferir levar como um.
Por enquanto, muito do que tenho andado a pensar, tenho encarado como devaneios, conceitos acabados; um trabalho que chegou ao fim. Sempre tentando raciocinar pra não morrer. A Clarice Lispector, em uma de suas últimas entrevistas, disse que estava morta por dentro (Por enquanto). Eu sou do mesmo jeito. Eu vezes existo, vezes vivo, mas tento sempre nunca morrer (Mesmo que por pouco tempo). Acho que eu tenho medo do pouco não ter volta.